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Alergia ao látex

 Entrevista com o Dr. Roberto Antônio Portugal


1 - O que é Alergia ao Látex?

Basicamente é o resultado a exposição constante ao produto de látex com alto teor de proteína, muito comum no Brasil.

2 - Porque isso ocorre?
Devido à falta de legislação adequada. Neste tópico estamos atrasados aproximadamente 10 anos

3 - Como ocorre a Alergia ao Látex?
A opção por produtos de látex de baixo preço e, portanto, com o tratamento inadequado, desde a industrialização do látex propriamente dito, até a confecção do produto final, tem como conseqüência os altos níveis de proteínas encontrados nos produtos brasileiros e de países especializados em vender a qualquer custo.
Os antígenos ou alérgenos, entram no corpo e isto estimula as células do sistema imune, entre elas os linfócitos T e B a produzirem anticorpos. Os anticorpos IgE geralmente se fixam aos mastócitos e basófilos. Ao reagir com o antígeno, a IgE fixada nessas células, provoca a liberação de histaminas e outros mediadores nela contidos. Os sintomas são espirros, espasmos dos bronquios, falta de ar, dilatação dos vasos sangüíneos, queda da pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos, urticária e possível inconsciência.
As reações podem ser dos tipos anafilático (anafilaxia sistêmica, asma, febre do feno, urticária); citotóxico (hipertireoidismo; complexo-imunológico (hepatite, malária, lepra) e intermediário de células (eczema/dermatite). Vale ressaltar que as reações não são necessariamente gradativas, podendo começar logo pela mais grave, do tipo I - anafilático.

4 - O que isso tem a ver com as luvas de látex?
O látex tem proteínas naturais. As proteínas residuais nas luvas têm provocado reações do tipo IV (intermediário de células - eczema/demartite) nos usuários sensíveis.
É de acordo comum que o alto teor de proteínas residuais nas luvas pode causar a sensibilização.
O tempo de reação varia entre os indivíduos e também entre as várias raças, porém, a freqüência ou ciclo de uso das luvas é o fator determinante no total.

5 - Há risco para os usuários?
Não só para usuários, como também para os empregadores e pacientes.

6 - O Senhor pode discriminar esses riscos?
Os usuários e pacientes têm basicamente os mesmos riscos: entretanto, os usuários estão sob maior risco de desenvolver a alergia e/ou sensibilização devido à constante exposição, podendo ocasionar desde uma dermatite, passando por se tornar um doente ocupacional, impossibilitando-o ao trabalho e até ocorrer óbito.
Para pacientes deveríamos agir como em centros desenvolvidos, incluindo na anamnese pergunta específica sobre alergia ao látex ou a frutas como mamão papaia, abacate, kiwi, tomates, etc, uma vez que as proteínas encontradas no látex estão presentes também nessas frutas.
Os empregadores podem se ver envolvidos em grandes questões jurídicas, de vultosas quantias, como ocorre em todo mundo, em virtude do risco de se incapacitar para o trabalho os usuários de produtos de látex, o que com certeza também acontecerá no Brasil; é uma questão de tempo.


7 - Então teremos que utilizar produtos sintéticos?
Não necessariamente, pois as luvas sintéticas ainda não oferecem a mesma sensibilidade, conforto e segurança dos produtos de látex, além dos custos serem muito elevados.
Outros fatores importantes: o Dr. Yunginger citou estudos de luvas de vinil previamente utilizadas e descartadas, que indicaram índices de vazamentos entre 43 e 85%, contra 9 a 31% para as de látex.
De forma similar, a penetração de vírus indicou ser muito mais alta, de 22 a 40% nas luvas de polietileno e polivinil, contra apenas 1% de falha nas luvas de látex.
É possível que látex de baixa proteína e baixo pó, em última instância, seja menos perigoso ao usuário final que a exposição ao alto risco de contaminação por falha nas luvas.
Além disso, existem barreiras ecológicas que em países desenvolvidos são obstáculos às luvas sintéticas, já o látex é biodegradável.

8 - Todas as luvas sintéticas têm essa problemática?
Sim, como exemplo podemos citar o NITRILO, que é um copolímero de acrilonitrilo em quantidades variáveis, um suspeito de ser um cancerígeno humano.
Ainda podemos citar o NEOPRENE, que é um polímero de cloroprene. Queimar nitrilo e neoprene é perigoso, visto que o nitrilo libera o cianido de hidrogênio e o neoprene, cloreto de hidrogênio e dioxinas.
Poluição é um insulto ambiental. O aumento do nível de preocupação da sociedade com poluentes deve incitar à mudança para materiais mais seguros e possivelmente biodegradáveis para continuada responsabilidade e assistência ao sistema ambiental.

9 - Estamos então em situação dicotômica, pois produtos de látex podem causar alergia e os sintéticos conseguem ser ainda piores, ou existem produtos de látex considerados seguros?
Sim, a indústria do látex reagiu muito rapidamente ao problema da alergia, desde o plantio, passando pela centrifugação até a industrialização.
Nos estudos realizados pelo Rubber Institute of Malásia e University of Tempere, Helsink, um principal centro de pesquisa quanto às reações alérgicas, concluíram que níveis de proteínas abaixo de 100mg/g de luva de látex, 90% dos usuários sensibilizados não apresentam respostas alérgicas.

10 - O Senhor fala em mg/g (micrograma por grama de produto), mas em nossa breve pesquisa, encontremos também mg/dm2 ( micrograma por decímetro quadrado ), poderia elucidar essas unidades de medição?
De acordo com ASTM, mg/dm2 é aproximadamente o equivalente a mg/g, baseado nos seguintes cálculos:
(PE, mg/g) (peso da luva, g)
(10.000mm2/dm2) = ___________

Obs.: PE = proteína extraível. (cumprimento da luva, mm ) (largura da luva ) (4 lados)

(200 mg/g) (6,5) (10.000mm2/dm2) =________________=211 mg/dm2.
(200mm) (70mm) (4lados)

Note que o peso da luva do exemplo é de 6,5g e uma luva cirúrgica no Brasil pesa em média 10g, dependendo do tamanho.
Me permita falar um pouco sobre nossa preocupação com o meio ambiente.
Um item de valor considerável no orçamento da Lemgruber, é o tratamento de efluentes e nós não abrimos mão de fazê-lo. Nossa empresa se orgulha de estar sediada em Engª Paulo de Frontin-RJ, considerado o 4ª clima do mundo e nosso índice de poluição ao ecossistema é zero.
Caso estivéssemos situados em qualquer país europeu, EUA e outros, teríamos preferência no fornecimento. Infelizmente no Brasil ainda não temos essa consciência ecológica e R$ 0,01 (um centavo de real) pode decidir uma compra.
Por isso todos os custos com o tratamento de efluentes são absorvidos e não repassados aos preços.

11 - Quando lhe perguntei anteriormente sobre luvas sintéticas, o senhor fez menção ao pó das luvas. Seria o pó também causador da alergia?
O pó utilizado nas luvas cirúrgicas é hipoalergênico, sendo amido de milho estabilizado para que não ocorra a gelatinização. Sucede que o pó age como um catalisador das moléculas das proteínas do látex e em centros cirúrgicos, locais onde se calça e descalça uma grande quantidade de luvas cirúrgicas. Esse pó fica em suspensão, contaminando pacientes e profissionais por via respiratória. Imagine luvas com grande quantidade de pó e alto teor de proteínas, isso é o que acontece hoje no país.

12 - Existe legislação específica para limite de pó nas luvas?
O FDA propôs que a ASTM considere um limite de 120mg de pó não solúvel em água por luva médica empoada.

13 - Sendo pó das luvas um catalisador das moléculas de proteínas, existe alternativa para evitar a contaminação por via respiratória?
Utilizando produtos com baixo pó e baixa proteína, menos de 100mg/g de luva, além de luvas sem pó, Powder free, o hospital da Universidade de Tempere, na Finlândia, reduziu os casos de alergia ao látex de 2,9%, em 1986, para 1% em 1999.
Parametrando esses números com os brasileiros, onde repetimos não há ainda legislação especifica, portanto, onde produtos com altos teores de pó e proteína circulam livremente, encontramos números assustadores, que nos indicam que ou fazemos algo agora ou iremos nos tornar uma multidão de doentes ocupacionais.
Segundo dados da SOBECC, Sociedade Brasileira de Enfermagem de Centro Cirúrgico, há um potencial de desenvolvimento a alergia ao látex, no mercado brasileiro, entre 8 e 12%, o que representa uma catástrofe.


14 - A luva sem pó parece estar ganhando terreno, é verdade a afirmativa?
Sim, esse é o produto do futuro.
Para se ter uma idéia, nos EUA luvas com pó são proibidas em muitos estados.
Existem basicamente dois tipos de luvas sem pó, as clorinadas, que têm o processo produtivo altamente poluente e deixam as luvas com pouca resistência e elasticidade, já que o cloro agride física e quimicamente as moléculas do látex. Esse é o produto preferido por quem apenas vê o preço no ato da venda/compra.
Existem também as luvas polimerizadas, com camadas de polímeros revestindo seu interior, que protegem o usuário, não agridem o meio ambiente, nem tampouco sofrem agressão físico-químicas durante o processo produtivo, preservando as características originais do látex. Esses são produtos mais nobres, por conseqüência, devem custar um pouco mais.
A Lemgruber que tem todo seu trabalho voltado para a qualidade, optou pelas luvas polimerizadas.

15 - Como o mercado poderá saber a diferença entre uma luva clorinada e uma polimerizada?
A luva clorinada tem um odor desagradável e na maioria dos processos tende a ficar marrom, enquanto a luva polimerizada tem a cor e resistência do látex preservada.

16 - Existe alguma orientação confiável, que sirva de referência aos usuários?
Sim, nossa preocupação foi e é nesse sentido, por isso mandamos fazer análises dos níveis de proteínas, de praticamente todos os produtosa utilizados no mercado brasileiro, em laboratórios oficiais da Malásia, centro produtor de látex mais desenvolvido no mundo, e o resultado está a disposição no livro que a Lemgruber publicou sobre Alergia ao Látex, ou em nosso site www.luvaslemgruber.com.br, com os nossos laudos comprobatórios e tabela comparativa com as cinco marcas mais vendidas no país. Pode se ver na tabela comparativa que existem luvas cirúrgicas sendo utilizadas, no mercado brasileiro com 16.900mg/g de proteína por luva, enquanto o FDA aprova somente 1.200mg/g por luva.

17 - A Lemgruber recentemente editou um livro sobre alergia ao látex? Como se consegue um exemplar?
Sim editou e faz parte de uma ampla campanha de marketing, apenas distribuir o livro a quem assiste às palestras sobre alergia ao látex que estamos proferindo em todo o país.

18 - O senhor deseja fazer alguma consideração final?
Apenas dizer que nós médicos e demais usuários de produtos de látex, além de pacientes, corremos alto risco de nos tornarmos doentes ocupacionais e/ou sofrer conseqüências da utilização de produtos com elevados índices de proteínas. Precisamos nos unir e exigir em primeiro lugar uma regulamentação urgente junto aos órgãos competentes, o que vai demandar algum tempo e certamente nossa saúde não vai esperar.
O que está a nosso alcance fazer é rapidamente padronizar produtos de qualidade superior em nossas unidades de trabalho.

Dr. Roberto Antonio Portugal

 

 

 



Dr. Roberto Antônio Portugal,
médico, Presidente da Lemgruber